domingo, 16 de setembro de 2012

Porque cheguei à conclusão de que voltara a estar cheia mas de maneira diferente, porque o que nos enche muda consoante o nosso gosto

Ao chegar a casa, tomar um banho, e ir-me deitar cheia de cansaço mas sono nenhum fez-me lembrar quando voltei do CIFA (pois raramente tomo banho de noite, e aquele cansaço característico de quem volta para a rotina sem o querer). Sono nenhum mas sono a mais para escrever, pelo que adiei uma semana. De cancioneiro aberto na página 173. Venho tão cheia deste verão, com a sensação de não ser capaz de digerir tudo com tempo, porque tudo acontece sem pausas, sem tempo para pensar. Mas esta sensação é muito boa, mesmo tendo eu medo de por não ter tempo de processar as coisas, que algumas se percam pelo caminho...

Desde pequena que sempre gostei de ter muitas coisas para fazer, uma agenda e um horário lotados, andar a correr de um lado para o outro, mesmo que me cansasse, gostava dessa azáfama toda. Mas não eram coisas que me enchessem de tal modo que, por saltitar de coisa em coisa tão rápido, eu não tivesse tempo para digerir tudo. Vejamos, como se as coisas fossem mais imediatas, não precisassem de ser processadas, por muita correria, tudo tinha o seu tempo. E este ano estava a sentir-me mais vazia, mais calma, sem tanta correria, que me começava a fazer falta. E foi assim até metade do verão, posso bem dividir o verão, pois metade dele foi calma a recear o que a outra metade cheia podia sacrificar, e a outra metade foi bem cheia, e no final ainda tudo está como devia. E posso dizer que o ponto de viragem foi o dia em que fiz 18 anos. Sempre com o seu significado mais especial, e pela noite que se proporcionou, pela lembrança dos que lá estão, por ter sentido que fazia todo o sentido mesmo. Depois foi sempre a correr, entre malas e despedidas durante uns três dias sempre que voltava mas ia depois em breve, tentando manter o que havia por cá, tentando aproveitar o tempo que não tinha, tentando matar as saudades passadas e futuras. E no final, só sacrificamos as coisas se quisermos, as circunstâncias não decidem por nós. As circunstâncias até podem fazer crescer. E foram 17 dias num campo intenso, 25 dias intensos também na Califórnia, que começaram com uma surpresa no aeroporto que levantava poeira desse campo, e mal cheguei por fim, depois de uma viagem de avião que não deu para digerir nada entre sono e mal estar, onde fui eu? Para casa processar tudo o que aconteceu? Não, directa para a avaliação desse campo, numa casa onde tudo se iniciou, ver se conseguia surpreender alguns corações. E se achava que ia ter tempo nas 2h30 de viagem, nem isso, porque me surpreenderam a mim, e ainda bem, pois foi para matar as maiores saudades que tinha. Nessa noite até de manhã, revelações, lembranças, ouvir e dizer coisas importantes, reflectir nelas, coisas que demoram mesmo a processar. Ouvir coisas que achei que ninguém notara, e eu ficara por dizer. Saber como marcaste certas pessoas. O exercício de pensar em como algumas te marcaram. Mas não houve tempo também para processar, porque cheguei a casa e já era hora de dormir, para acordar cedo no dia seguinte. E as memórias da califórnia ainda estavam por processar também. E de repente, fogo, é tanto! É tanto e desta vez necessita ser digerido, necessita mesmo, foi tão cheio que necessita ser gravado... E lembro a frase de um amigo que diz que por vezes lhe vêm as lágrimas aos olhos só de estar tão cheio, como se tudo o que tem nele transbordasse. É isso, dar graças. Já não é o não ter tempo de correria seguida, é estar tão cheio que digerir é forçado exercício, por entre os tempos em que posso, o que faz demorar mais a ressaca, e ainda bem, pois faz trazer tudo comigo. E agora querer recuperar certos tempos perdidos no verão. E sentir que não vai haver tempo no futuro para processar o que ficou por ser processado. Só espero não esquecer.

Vale a pena ser para os outros, vale a pena estar do outro lado do oceano e deixar umas palavras em caixas de correio. Vale a pena correr kms, valem a pena as surpresas, vale a pena abrir horizontes, não há que ter medo de voar sem companhia, vale a pena o mocamfe, vale a pena estar grata e vale a pena que tudo seja sem tempo para digerir, se isso significar um estômago cheio. Na minha mochila trouxe desta metade de verão muito peso, muita bagagem, muitos sorrisos, muitas descobertas. Espero que seja um bom começo da maioridade. E não me perder com tanto pelo caminho.



Está na hora de ouvires o teu pai,puxa para ti essa cadeira,cada qual é que escolhe aonde vai hora-a-hora e durante a vida inteira... Podes ter uma luta que é só tua, ou então ir e vir com as marés,se perderes a direcção da Lua olha a sombra que tens colada aos pés... Estou cansado. Aceita o testemunho. Não tenho o teu caminho pra escrever. Tens que ser tu, com o teu próprio punho. Era isso o que te queria dizer. Sou uma metade do que era com mais outro tanto de cidade,vou-me embora que o coração não espera à procura da mais velha metade... (Rio grande)





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